Denominação

CADERNO DE CAMPO

Por Maíra Taquiguthi Ribeiro

Já era a quarta vez que eu entrava e saía daquela sala sem nem parar para olhar ao redor. Estava na Coordenação Regional da Funai em Barra do Garças. Já era meio da tarde e eu ainda estava resolvendo umas burocracias chatas. Dependia de computadores e favores alheios para fazer o que precisava. Já estava ficando louca: entra numa sala, pede um computador para fazer uns ofícios; vai para outra sala, pede para verificar; volta na sala para corrigir; vai para outra sala para imprimir; vai para outra sala protocolar; vai para outra sala, espera (e espera e espera mais um pouco) umas assinaturas; vai para a outra sala para arquivar…

Eu já não aguentava mais. Afinal, meu dia ali não estava rendendo e eu ainda teria que voltar naquela mesma noite para Nova Xavantina. Com o detalhe que tive que levar minha filha a tiracolo, porque é o tipo de coisa que não dá para deixar em casa sozinha quando se viaja. Então, entre uma ida e uma volta às salas, eu tinha que correr atrás da Isadora, que estava também entrando em todas as salas da Coordenação Regional, muito à vontade.

Na quarta vez que eu entrei numa das salas, sempre rezando para ser a última, notei que havia um casal Xavante num canto, com uma criança de colo. Eles me olharam e me cumprimentaram com um sorriso, o qual retribuí com muita cordialidade.

Saí da sala, mas qual foi minha decepção, em dez minutos tive que voltar. Daquela vez  era para valer, já estava de saída. Me despedi de todos, que já não aguentavam mais se despedir de mim, quando o jovem rapaz do casal Xavante que havia me cumprimentado há pouco me chamou:

– Você é Maíra, não é? Esse é seu nome?

– Sim, sou eu, prazer. Como você se chama?

Estendi a mão para os dois. Ele me falou seu nome, assim como o da esposa, disse que são da Terra Indígena de São Marcos, a qual eu nunca tive o prazer de visitar:

– Eu lembro de você da reunião do Comitê Regional, em 2014. Gostei do que você falou. Quando nasceu nossa filha, resolvemos dar o seu nome para ela. Ela já tem dois anos, é uma menina esperta. Então, agora você sabe, já tem uma menina Xavante Maíra.

De repente, no meio daquela chatice burocrática insípida de um tom cinza enfadonho, criou-se uma aura multicolorida que pintou todo o ambiente com cores vibrantes. O ar até soprou mais forte, deixando meus pelos arrepiados. Algo aconteceu que até o som das maritacas anunciando o fim da tarde lá fora ficou ensurdecedor aqui dentro, enquanto os cheiros das coisas, pessoas, papéis, café e carimbos se misturavam, me relembrando daquele aroma único e inconfundível de Funai.

Me senti viva e agradeci com muita honestidade aos dois, pela escolha e por terem me
contado aquilo, apresentando minha filha em seguida.

Fiquei pensando depois, já saindo da Funai, o que será que eu disse de tão legal que os
fez dar meu nome à sua filha. Ao mesmo tempo, relativizei a questão, já que os casais Xavante costumam ter uns 10 filhos e alguns nomes em português costumam ser bem esdrúxulos. Não nesse caso, é claro. De qualquer forma, pensei que apesar da burocracia chata a que às vezes (muitas vezes) nos atemos, algumas coisas que fazemos até que valem a pena.

Nova Xavantina/MT, 15 de junho de 2016

Maíra Taquiguthi Ribeiro é indigenista associada e servidora da Funai em Barra do Garças/MT, trabalhando com o povo Xavante desde que entrou na Funai em 2010.

 

Imagem em destaque de Lilian Brandt Calçavara.

A coluna Caderno de Campo é dedicada à contação de causos, crônicas e histórias do trabalho e vivência indigenista. Caso tenha uma história para contar, escreva para comunicacao@indigenistasassociados.org.br